Conheça Gláucia, primeira cooperada do H360 que deixou a prisão e continua produzindo para a marca Tereza

Gláucia estava presa há seis anos por tráfico de drogas quando aderiu à cooperativa de artesanato que o Instituto Humanitas360 implantou na área de regime fechado da Penitenciária Feminina 2 de Tremembé, em São Paulo. Pouco depois, ganhou o direito de progredir para o regime semiaberto, onde seria obrigada apenas a dormir na prisão. Entretanto, recusou o benefício para continuar ajudando as outras detentas no desenvolvimento do negócio. Em agosto do ano passado tornou-se a primeira cooperada a ganhar liberdade, e continua sócia do empreendimento, produzindo para a marca Tereza, que representa os produtos da cooperativa.

“Eu fui conhecer a proposta e fiquei sabendo que era para trabalhar primeiro, criar a cooperativa, para depois ter o retorno financeiro. Tinha que acreditar. E eu acreditei”, diz Gláucia Thomaz, 41. Com metas de produtividade para cumprir, ela trabalha para a cooperativa desde sua casa, na cidade de Cruzeiro, no interior paulista. Faz crochê e costura para as coleções de peças artesanais.

Essa é a primeira vez que Gláucia tem uma ocupação profissional. Aos 11 anos, descobriu ser filha adotiva. Aos 12, começou a usar drogas, e aos 14 virou mãe de um menino batizado com nome egípcio, Akinaton. “Para sustentar a mim e ao meu filho, caí no mundão, como dizem”, conta ela. Viveu cometendo pequenos delitos até conhecer José Sérgio Thomaz, com quem se casou e teve duas filhas, Amine e Ayla.

Com o primogênito também envolvido com drogas, Gláucia foi presa e condenada, mas conseguiu o benefício de prisão domiciliar por ter filhas menores de 12 anos. No entanto, ao não comparecer às audiências marcadas, foi sentenciada ao regime fechado. Enquanto esteve detida, seu marido, já idoso, morreu e ela não pôde comparecer ao enterro. “Minha vida virou uma loucura dentro daquele lugar. Você encontra gente que assaltou banco, fez tráfico internacional, pessoas que mataram, que estupraram… Ali fiquei na minha, sem me envolver, ficava lendo. Sou kardecista, lia muito livro espírita”, conta ela.

No dia em que deu entrevista para esta reportagem, Gláucia estava em São Paulo, participando, junto com a equipe do H360, do bazar de rua Mercado Buenos Artes, que aconteceu atrás do Parque Trianon, na avenida Paulista. Lá conquistou um público que nunca tinha entrado em contato com um ex-detento, que nunca foi a uma prisão. As pessoas paravam para admirar um produto, e se encantavam ao conhecer a Gláucia e sua história.

Seu trabalho além das grades inclui também a divulgação da marca Tereza, ser a porta-voz de quem nunca foi ouvido. “No que depender de mim, a cooperativa só vai crescer. As detentas que estão lá e não tem para onde ir, quando saírem, vão ter um trabalho, um dinheirinho para pagar um lugar para dormir, para comer”, diz Gláucia, antes de continuar: “Porque isso sim é ressocializar, dar uma oportunidade de vida para alguém que já pagou o que fez e tem o direito de melhorar. Hoje eu sou uma cooperada feliz.”

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