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A reportagem abaixo, escrita por Fernanda Simon, foi publicada pela Vogue Brasil em 13 de fevereiro.

Do cárcere à liderança: como a moda pode promover transformações sociais por meio da empregabilidade e suporte emocional

Por Fernanda Simon

Flávia Maria da Silva nasceu na periferia e, ainda bem jovem, se relacionou com um traficante, que acabou morto, deixando-a sozinha com um filho pequeno. Sem suporte emocional e com poucas perspectivas, acabou entrando para o tráfico de drogas e foi condenada a 22 anos de prisão, dos quais cumpriu 11. Em 2018, ainda na penitenciária, conheceu um projeto de empreendedorismo cívico-social para mulheres do sistema carcerário, apresentado pela advogada e filantropa Patrícia Villela Marino, presidente do Instituto Humanitas360. “Foi ali que tudo começou. O projeto surgiu para vender produtos desenvolvidos por cooperativas dentro do sistema prisional. Depois, virou uma marca social que ganhou o mundo”, conta Flávia.

Assim surge Tereza, um negócio social com o propósito de gerar impacto social por meio do trabalho e da capacitação, oferecendo geração de renda, dignidade e novas oportunidades para mulheres que enfrentam enormes barreiras ao deixar o sistema prisional. “Para a Tereza, o sucesso não será medido apenas pelo faturamento. Nosso verdadeiro sucesso estará na taxa zero de reincidência criminal das mulheres que passam pelo nosso negócio social e no crescimento da liderança feminina em nossa equipe. A cada ano, queremos formar mais líderes do que produtos. Cada peça vendida é um passo para quebrar o ciclo da invisibilidade e da pobreza”, afirma Flávia, que atualmente é a CEO da Tereza.

A marca produz acessórios como bolsas e carteiras, e recentemente lançou sua primeira peça de roupa: um quimono bordado à mão feito em tecido de cânhamo. Além do olhar social e econômico, a Tereza busca trabalhar com matérias-primas de baixo impacto ambiental, reforçando a importância da sustentabilidade em toda sua operação.

A Tereza faz parte do ecossistema de organizações apoiadas pelo PDR Fundo Filantrópico, que inclui o Instituto Ficus, que atua ativamente pela regulamentação do cânhamo no Brasil, e o próprio Humanitas360. Desta forma, a busca por sustentabilidade desde a matéria-prima impulsionou a escolha da fibra de cânhamo.

A valorização da história de quem faz está presente em cada peça, pois cada etiqueta traz relatos reais das mulheres que produziram e revelam não apenas suas vivências, mas também as marcas da desigualdade social que ainda persiste em nosso país. “Cada peça que produzimos carrega uma história de transformação. O quimono de cânhamo representa nosso compromisso com o impacto social positivo que queremos gerar com nosso trabalho”, afirma Flávia.

Segundo Flávia, um dos maiores desafios enfrentados pelas mulheres egressas é recuperar o sentimento de pertencimento, pois o rótulo de ex -presidiária acompanha e dificulta a reinserção social. Nesse contexto, a Tereza atua não apenas para reduzir desigualdades, oferecendo emprego e formação profissional, mas também apoio emocional, possibilitando que essas mulheres retomem suas vidas com autonomia e dignidade. A marca também fornece materiais corporativos para empresas, como bolsas, carteiras e capas para notebook, geralmente produzidos com materiais reciclados, e já firmou parcerias com marcas como Vult Cosméticos, Jogê e Irá Salles.

O próprio nome da iniciativa carrega uma metáfora poderosa. “Tereza” é como pessoas presas chamam cordas improvisadas, feitas com lençóis amarrados, usadas em tentativas de fuga. Essa simbologia se transforma e representa um caminho para a liberdade, não transitória nem ilegal, mas sim legítima e permanente, construída pelo trabalho e pela inclusão.

A Tereza é um exemplo de negócio social guiado pelo propósito de mudança e mostra que é possível criar produtos de moda que impactam diretamente, de forma positiva, a sociedade. “Hoje, meu papel é fazer pelas outras o que fizeram por mim: dar oportunidade para transformar vidas, como a minha foi transformada”, finaliza Flávia.

Conheçam a Loja & Oficina Tereza

Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 362 – Pinheiros – São Paulo

Segunda a sexta-feira, das 10h às 17h

www.tereza.org.br

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