Patrícia Villela Marino
Presidente do Instituto Humanitas360
Há mais de vinte anos, convivo com histórias de vida atravessadas pela crise da Venezuela. Cidadãs e cidadãos venezuelanos de vários estratos sociais, que conheci na minha militância cívico-social e na vida pessoal, tiveram suas rotinas interrompidas pela repressão política e pelo exílio forçado. Conheci mães sem acesso a medicamentos para tratar os filhos, presos políticos, famílias separadas por fronteiras e medo.
Reconhecer a gravidade do autoritarismo e da violência de Estado perpetradas por Nicolás Maduro, e antes dele Hugo Chaves, é um dever ético. Mas isso não significa endossar aventuras militares como a que os EUA iniciaram esta semana. Intervenções externas e retóricas como essa apenas atualizam o velho script do neocolonialismo. Não há solução fácil para o que vive hoje a Venezuela.
A América Latina já viu esse filme. Ao longo do século 20 a “guerra às drogas” e a “defesa da democracia” foram usadas por diversos governos norte-americanos como justificativa para a militarização e violação de leis e direitos em nosso continente. Os Estados Unidos tiveram papel central na sustentação de ditaduras, no financiamento de golpes, na repressão a movimentos populares e na construção de uma lógica de segurança que sempre tratou a América Latina como zona de sacrifício. A Venezuela, com sua complexidade geopolítica, econômica e humana, não pode ser o território dessa infeliz volta ao passado.
Ao longo das últimas duas décadas estive ao lado de lideranças da oposição venezuelana que hoje vivem no exílio, algumas após prisão ou perseguição direta. Em parte por isso, em 2016, fui reconhecida com o Bravo Business Award, concedido pelo Council of the Americas, na categoria Humanitária do Ano. Recebi a homenagem como símbolo de um trabalho coletivo: a tentativa de ampliar o espaço da cidadania em vários países da América Latina, com foco em temas difíceis, como a reforma das políticas de drogas e a promoção de mecanismos de participação democrática. O que estava em pauta naquele momento, e hoje é mais atual do que nunca, é o direito das pessoas de se expressarem, de viverem com dignidade e de decidirem o futuro de seus países.
A crise venezuelana tem rosto, nome e história. Não será resolvida com fórmulas externas, mas com a reconstrução lenta e difícil da confiança social e institucional. E isso só será possível com o povo venezuelano no centro do processo, não como espectador, mas como sujeito da própria história. Por isso, reafirmo que qualquer saída para a crise venezuelana não pode vir da força militar nem de decisões impostas de fora para dentro. A resposta precisa vir do próprio povo venezuelano – especialmente daqueles que, forçados ao exílio, formam hoje uma diáspora ativa e profundamente comprometida com a reconstrução do país.
Há mais de duas décadas acompanho pensadores, lideranças e ativistas, que, mesmo afastados de sua terra, seguem estudando, elaborando e preparando caminhos para a reconstrução da nação, de suas instituições e de sua vida democrática. Mantêm viva, como ato de resistência, a esperança de um retorno digno, capaz de reparar as violências sofridas. Nesse contexto, cito o trabalho do professor Ricardo Hausmann, dedicado à formulação de um plano de reconstrução para a Venezuela, assim como as trajetórias de Yon Goicoechea, David Smolansky, Manuela Bolívar, Lilian Tintori, entre tantos outros nomes comprometidos com a recuperação democrática do país.
Mais do que nunca, precisamos reafirmar que solidariedade não é tutela. Que soberania não se negocia seletivamente. E que democracia não se impõe — se constrói. Com tempo, com escuta e com pessoas dispostas a sustentar esse processo com coragem e responsabilidade.
